Paulo LOPES BERNARDO ENA, Promotion Emile Zola (2010) > CampusFrance Portugal
 
Grandes Ecoles, Portugal
Paulo, Portugal

 

Paulo LOPES BERNARDO ENA, Promotion Emile Zola (2010)

 

Testemunho sobre a minha experiência na Ecole nationale d'administration

 

  1. Os pequenos passos que me levaram a integrar o ciclo internacional longo (CIL) da ENA

a) Durante a época da FDUNL, nem me passava pela cabeça...

 

Enquanto estudante de Direito na FDUNL de 1999 a 2004, tinha lido alguns artigos sobre o Direito

administrativo francês e, ao interessar-me pelas questões de funcionalismo publico, descobri a existência de uma escola específica para os ditos altos funcionários públicos: “l'Ecole nationale d'administration”(ENA). Antes disso, confesso que nunca tinha ouvido falar da “famosa” ENA! E estava longe de pensar nessa altura que integraria a prestegiada escola alguns anos mais tarde. Durante os anos de faculdade em Portugal, interessavam-me sobretudo as cadeiras relacionadas com os assuntos europeus e internacionais. Fascinavam-me a história da União Europeia, os grandes princípios que orientaram a sua criação e as diferentes etapas da sua construção. Fiz portanto DIP (público e privado), Comunitário I e II e até Economia internacional. Para além desse interesse, tinha uma clara predilecção pela área do Direito público, apesar de ter hoje de admitir que tive pouco interesse no 2° ano pela cadeira de Direito administrativo. Por todas estas razões, no fim do curso tomei a decisão que parecia impor-se-me: envergaria por uma carreira na área dos assuntos europeus ou internacionais.

 

 

b) ...mas a escolha de uma carreira no fim da licenciatura acabou por impôr-se.

A vontade de integrar a carreira diplomática acabou por marcar o meu percurso de forma perene. De

facto, quando em 2004 foi publicado o aviso do concurso do Ministério dos Negocios Estrangeiros para o recrutamento de adidos de embaixada, tive a desagradável surpresa de constatar que uma das primeiras provas eliminatórias do concurso era a prova de língua francesa. Eu, que estudara línguas germânicas (Alemão e Inglês) na secundária, sabia que não tinha qualquer hipótese de passar a primeira etapa do concurso. Para aprender da forma mais rápida possível e para chegar a um nível “aceitável”, decidi ir viver para Paris. O objectivo era de ficar durante dois anos: estudar a língua no 1º ano e no 2° as relações internacionais na Universidade de Paris XI. No Master 2 que fiz nesta universidade, tive a oportunidade de ter professores “enarques” (nome dado aos antigos alunos da dita escola), que me incitaram a frequentar o ciclo internacional longo da ENA. Apesar de reconhecer a qualidade do ensino,

não via o interesse em ter mais um “canudo”. Para além do mais, tinha surgido uma oportunidade de emprego que me levou em finais de 2006 para a Representação Permanente de Portugal, em Bruxelas. Tive nesse âmbito novamente a possibilidade de conhecer enarcas, quase todos conselheiros na “RP” (na gíria bruxelense, RP designa a Representação Permanente de França) e que me deixaram bastante impressionado pelo profissionalismo, rigor intelectual e agudo sentido político com que negociavam nas instâncias preparatórias do Conselho.

Tendo em conta as escassas oportunidades de emprego público em Portugal e a vontade de enveredar por uma carreira administrativa nas instituições europeias, achei essencial completar os meus conhecimentos e experiências através de uma pós-graduação sobre o funcionamento e os modos de formulação das políticas públicas nas administrações europeia e francesa. A ENA oferecia assim a possibilidade de aprofundar os meus conhecimentos dos assuntos europeus, de descobrir a administração territorial (tanto do Estado, como das restantes colectividades, nomeadamente locais) francesa e de iniciar-me às questões de gestão e “management” públicos. Inscrevi-me no “concurso”, fiz as provas – bastante difíceis – escritas e a oral, e no final de 2007 integrei o ciclo internacional longo da ENA.

 

  1. A experiência única de estudar na ENA

a) Ter a bagagem sempre pronta para viajar...

Não julgo relevante entrar em detalhes sobre os módulos que segui enquanto formando da ENA, visto o programa ter certamente evoluído desde 2007. Prefiro mencionar as experiências únicas que tive, como o facto de ter vivido em Estrasburgo, em Arras e em Bruxelas durante os 16 meses de formação. Passei cinco meses na prefeitura do Pas-de-Calais (norte de França), onde pude assistir à acção e presença do Estado num território com características muito específicas e com problemas económicos e sociais bem diferentes dos que vi em Bruxelas. Era um mundo completamente distinto dos “corredores” da diplomacia e do lobbying da capital europeia. Tive também a oportunidade de viver numa cidade e região lindíssimas que são Estrasburgo e a Alsácia, cuja proximidade com a Alemanha não é apenas geográfica, mas também cultural.

Muitas foram as pessoas que conheci, com quem aprendi bastante. Eramos 120 alunos ao todo: 90

franceses e 30 estrangeiros. Entre colegas havia obviamente diferenças notáveis, incluvise (diria

sobretudo) entre os franceses, mas o provérbio “les voyages forment la jeunesse” faz todo o sentido na ENA.No final desta experiência, passei a sentir que o mundo era na verdade uma grande aldeia (sem tomar em conta as facilidades de comunicação que a Internet nos permite hoje em dia), onde cada um pode contribuir para a transformação do mundo que o rodeia, no dia-a-dia e em cada decisão que toma.

E que os povos não são melhores ou piores, mas diferentes. A minha experiência permitiu-me viver num ambiente de constante partilha de ideias e de perceber que as relações internacionais e interculturais são um princípio fundamental para o nosso crescimento enquanto cidadãos dum mundo cada vez mais pequeno. Por outro lado, as minhas competências pessoais também foram claramente influenciadas, nomeadamente a auto-confiança e a capacidade de adaptação a novas situações. Passados 7 anos, mantenho contacto regular com os meus colegas, sobretudo via as redes sociais, mas também através da associação dos antigos alunos. Claro que houve também momentos difíceis, nos quais até o mais experiente agente diplomático teria perdido a paciência, sobretudo durante as provas colectivas! E houve períodos em que tinha muitas saudades de Portugal e da minha família, mas como 2/3 da formação é constituída de estágios, não podia

propriamente pegar nas malas e apanhar um avião (sobretudo de Arras).

 

b) … para chegar à conclusão que vale a pena estar ao serviço do interesse público.

Encontrei várias diferenças culturais entre Portugal e França. Uma das mais positivas e que mais me

marcou foi a forma como os Franceses consideram que o Estado detém legitimamente um papel fulcral na regulação das actividades humanas. A história do país dá-nos uma explicação deste fenómeno, mas não explica o apego extremado dos Franceses à res publica. Daí ser politicamente inconcebível proceder a reformas de grande envergadura da função pública, cujo peso e importância são reconhecidos pela população e cidadãos em geral em França.

Para concluir, diria que esta experiência foi uma verdadeira formação profissional. Depois de anos

passados a estudar no meio universitário, a ENA foi uma verdadeira escola prática de aprendizagem no terreno e com os métodos específicos das administrações, tanto francesas quanto europeias. Portanto, se o vosso objectivo é enveredar por uma carreira ligada aos assuntos públicos nacionais, europeus ou internacionais, e quiserem completar a vossa formação em Direito com uma formação de alta qualidade sobre a Administração Pública, aconselho vivamente o CIL da ENA.